Quarta-feira, 22 de junho de 2016 às 12:20 em Música
Dream Theater vem ao Brasil inspirado em 'Game of Thrones' e 'Star Wars'

Muitos dos adoradores do virtuoso guitarrista americano John Petrucci, do Dream Theater, devem gastar horas e horas tentando reproduzir os solos quilométricos criados pelo ídolo. Já o artista – tido como um dos instrumentistas mais habilidosos do rock e atualmente em turnê de quatro shows com a banda no Brasil (veja detalhes abaixo) – prefere gastar calorias em outra atividade: musculação (ou "body building", como eles dizem lá).

"A música sempre foi a coisa mais importante da minha vida. Só que, definitivamente, é preciso mais energia para malhar do que para tocar guitarra, com certeza”, brincou ele em entrevista ao G1 por telefone. Aos 48 anos, Petrucci acredita que sua vida de atleta do fisiculturismo amador tem reflexo na sua vida de atleta da guitarra: "Musculação é algo que me ajuda não apenas a ficar em forma, mas a me sentir jovem e a sentir que posso continuar nessa carreira".

Outra coisa que Petrucci gosta de fazer quando não está com a guitarra em punho (presume-se, pelo seu desempenho e perfeccionismo, que não exista tanto tempo livre assim...) é assistir a séries como "Game of Thrones" e a filmes como "Star Wars", "Senhor dos Anéis" e "Jogos Vorazes". É o tipo de história que inspirou o disco novo do Dream Theater, "The Astonishing". "Gosto realmente de coisas com enredos complicados, diversos personagens, a mitologia que envolve tudo aquilo", explica o guitarrista.

Trata-se de um álbum à moda (progressiva) antiga: conceitual, com as 34 faixas contando uma história. No caso, de um futuro apocalíptico em que nos Estados Unidos vigora um regime feudal tipo Idade Média mas com influências livres de ficção científica. E Petrucci tem dito por aí que os shows estão "com cara de espetáculo musical da Broadway".

Expoente do metal progressivo ou do progressivo em geral, o Dream Theater nasceu em 1985, criado pelo próprio Petrucci, por seu amigo baixista John Young e por seu amigo baterista Mike Portnoy. Mas parte de toda essa amizade se desfez quando este último saiu (ou foi saído) da banda em 2010. Inclusive perguntas sobre este último foram previamente proibidas nesta entrevista. De resto, o guitarrista foi educado e sério, do tipo que passa reto pela ironia e tende a responder objetivamente.

A formação que se apresentou em Belo Horizonte nesta terça-feira (21) e depois passa por Paulo nesta quarta-feira (22), Rio nesta quinta-feira (23) e Curitiba neste sábado (25) tem ainda o vocalista James LaBrie, o tecladista Jordan Rudess e o baterista Mike Mangini.

Leia, a seguir, os principais trechos da conversa com Petrucci, o líder da turma:

John Petrucci, guitarrista do Dream Theater, fala ao G1 (Foto: Divulgação)

G1 – No disco novo, vocês se inspiraram em mundos fantásticos, como o de 'Game of Thrones' e 'O senhor dos anéis', e em ficção científica, como 'Star Wars'. São suas séries e filmes favoritos?
John Petrucci –
 Estes são realmente meus favoritos. Mas tenho muitas outras influências, sabe? Além desses que você falou, "Jesus Cristo Superstar", por exemplo. Eu me inspiro em outras séries e filmes, coisas que vi ao longo de muitos anos.

Gosto realmente de coisas com enredos complicados, diversos personagens, a mitologia que envolve tudo aquilo – é algo que realmente me interessa. É divertido escrever inspirado nisso.

G1 – Você já descreveu a produção de palco da Astonishing Tour como algo tão elaborado que chega a parecer mais um musical da Broadway do que um show de rock. Por que isso?
John Petrucci –
 É meio que um cruzamento entre… Bem, certamente é um show de rock, sabe? Mas tem um aspecto visual importante: um telão que recria o ambiente em que se passa a "história" narrada nas músicas do disco.

Então, quando você está diante do palco, parece que essa história está sendo representada ali, muitas animações, você consegue ver os personagens e tudo o mais. É muito, muito visual, mas definitivamente tem muito de rock, com certeza.

G1 – Vão tocar mesmo todas as músicas de 'The Astonishing'? Não é muita coisa?
John Petrucci –
 Vamos tocar o disco inteiro, do começo ao fim. Faremos isso em dois atos: Ato 1, depois intervalo e Ato 2. Provavelmente isso vai levar duas horas e meia, então é música pra caramba.

G1 – Em recente entrevista à revista 'Guitar World', você brincou que a música 'A life behind' não tem solo de guitarra, dizendo: 'São 34 faixas no disco, e nem todas elas têm solo. Claro, há solos... Porque é preciso ter'. Este foi o seu maior desafio no disco novo: escrever uma música inteira sem um solinho sequer?
John Petrucci –
 Bem, em "The Astonishing" tem definitivamente um monte de solos de guitarra. Mas isso nem sempre faz sentido para todas as músicas. Porque no disco as músicas tinham de "ilustrar" o que estava acontecendo na história. Então, musicalmente estávamos meio que apresentando cenas da narrativa para o ouvinte.

Às vezes, um solo não é apropriado e não faz sentido musicalmente. O show inteiro é um desafio, e certamente há solos de guitarra em quantidade suficiente para me satisfazer como guitarrista – com certeza.

John Petrucci, guitarrista do Dream Theater, fala ao G1 (Foto: Divulgação)

G1 – Além de guitarrista, você é um dedicado praticante de musculação. O que é mais difícil ou cansativo: tocar guitarra do jeito que você toca ou levantar peso na academia?
John Petrucci –
 Musculação é parte da minha vida há muito tempo, algo que me ajuda não apenas a ficar em forma, mas a me sentir jovem e a sentir que posso continuar nessa carreira, sabe?

Já a música sempre foi a coisa mais importante da minha vida. Só que, definitivamente, é preciso mais energia para malhar do que para tocar guitarra, com certeza (risos)

G1 – A sua mulher também é guitarrista. O assunto 'guitarra' é proibido na mesa de jantar da sua casa?
John Petrucci –
(Risos) Não, não! Nós amamos falar sobre isso, sabe? E não apenas minha mulher é guitarrista, mas os meus minhas duas e meu filho também são, todos eles. Então, sempre tem alguém lá em casa mostrando uma música para o outro ou cantando. Ou é minha mulher aprendendo alguma música, eu me preparando para um show – há sempre música e sempre guitarra. Nós ainda adoramos falar sobre esse assunto, com certeza. 

G1 – Que banda seu filho apresentou a você recentemente?
John Petrucci –
 Não sei, sabe? É uma boa pergunta. Deixa eu pensar... Não teve uma recente. Ah, ele me disse que o novo disco novo do Radiohead é incrível, que ele adorou. 

G1 – Mas você chegou a ouvir?
John Petrucci –
 Não, ainda não ouvi. 

G1 – Mas você é fã do Radiohead ou é só seu filho?
John Petrucci –
 Sou, sim.

G1 – Você já teve ou tem um monte de bandas e projetos, além do próprio Dream Theater, como Liquid Tension Experiment, a turnê G3 com Joe Satriani e Steve Vai. Qual deles lhe dá mais orgulho?
John Petrucci –
 Com certeza, o Dream Theater. Essa banda tem sido algo que me permitiu uma expressão artística completa pela maior parte da minha vida. Além de ter me dado uma carreira que me satisfaz muito: viajo ao redor do mundo, conheço gente incrível, visito países fantásticos, como o Brasil. E ainda sustenta meu estilo de vida, minha família, a esposa e as crianças... Então, o Dream Theater representa minha maior conquista musical, não há dúvidas quanto a isso. 

G1 – Qual a lembrança mais especial de todos esses anos no Dream Theater?
John Petrucci
 – Tem tantas lembranças incríveis... Lembro da primeira vez, quando éramos jovens, em que ouvindo nossa música no rádio. Estávamos no meu carro...

G1 – Você reconheceu o próprio estilo logo na primeira nota?
John Petrucci –
 Total (risos). Isso foi em 1992, por aí, estava com 20 e poucos anos.

John Petrucci, guitarrista do Dream Theater, fala ao G1 (Foto: Divulgação)

G1 – Você começou a tocar guitarra aos 12 anos de idade, não? Lembra-se da primeira vez em que pegou o instrumento na mão?
John Petrucci –
 Na verdade, quando tinha uns oito anos de idade, tentei tocar uma guitarra, cheguei a ter algumas aulas. Mas realmente não gostei, era meio impossível. Acho que eu era muito novo, era difícil tirar qualquer música, fazer soar bem, minhas mãos eram pequenas...

Depois, quando tinha 12 anos, aí era algo que eu realmente queria fazer na época, porque estava mais velho e interessado em música. Sou muito feliz por ter descoberto a guitarra naquele momento.

G1 – Qual foi a primeira música que você conseguiu tocar na guitarra?
John Petrucci –
 A primeira de todas acho que foi um riff do Neil Young, "Hey hey, my my".

G1 – Há algumas semanas, em entrevista ao site Music Aficionado, você deu cinco dicas para quem quer ser um grande guitarrista: '1: seja dedicado; 2: escreve suas próprias músicas; 3: toque junto com pessoas que sejam melhores do que você; 4: treine seu ouvido aprendendo diferentes tipos de solo; 5: aperfeiçoe seu estilo próprio'. E quanto a você: qual o melhor conselho mais valioso que já recebeu na vida como guitarrista?
John Petrucci –
 Uma das coisas mais importantes que aprendi, e já mencionei isso muitas e muitas vezes, quando alguém pela primeira vez que alguém me apresentou o metrônomo e como praticar com um metrônomo. Ali alguma coisa realmente aconteceu. Foi algo muito importante.

G1 – O Dream Theater já era uma banda de virtuoses quando tocou no Brasil pela primeira vez, em 1997. Dá para dizer que melhoraram muito de lá para cá?
John Petrucci –
 Acho que temos muita mais experiência, acho que evoluímos como compositores, artistas, músicos e como pessoa. Passamos por muita coisa na vida, com isso você meio que se torna melhor em tomar as melhores decisões, o que lhe permite enfrentar as coisas do melhor jeito.

Vinte anos atrás, nós nunca seríamos capazes de fazer um show de um disco como "The Astonishing". Teria sido impossível. Hoje em dia, por causa das pessoas incríveis que conhecemos e com quem trabalhamos, de toda a nossa experiência no estúdio e também tocando ao vivo, e ainda por causa das pessoas que trabalham nos bastidores, enfim, somos capazes. Nós definitivamente não desprezamos o quanto somos sortudos por ter oportunidade de fazer tudo isso – como artistas, como banda. É uma situação muito privilegiada e somos muito gratos.

John Petrucci, guitarrista do Dream Theater, fala ao G1 (Foto: Divulgação)

Dream Theater no Brasil com a The Astonishing Tour

São Paulo
Quando: quarta-feira (22), às 19h
Onde: Espaço das Américas (rua Tagipuru, 795, Barra Funda)

Rio
Quando: quinta-feira (23), às 21h
Onde: Vivo Rio (avenida Infante Dom Henrique, 85, Parque do Flamengo)

Curitiba
Quando: sábado (25), às 23h30
Onde: Ópera de Arame (rua João Gava, 874, Abranches)

 

Fonte: G1

 

COMENTÁRIOS